O Sínodo de Dort (1618-1619)

O Sínodo de Dort (ou Dordrecht) foi uma assembleia eclesiástica nacional e internacional da Igreja Reformada Holandesa, realizada na cidade de Dordrecht, nos Países Baixos, entre 13 de novembro de 1618 e 9 de maio de 1619. Convocado para resolver uma controvérsia teológica que ameaçava a unidade da igreja e a estabilidade política do país, o sínodo se tornou um dos eventos mais significativos da história do protestantismo, cujas decisões ecoam até os dias de hoje.

Sínodo de Dort

Contexto

Maurício de Nassau

O Sínodo de Dort ocorreu em um período de tensão política e religiosa nos Países Baixos. A nação havia recentemente conquistado sua independência da Espanha católica na Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), e a fé reformada calvinista desempenhou um papel crucial na identidade nacional. No entanto, no início do século XVII, uma controvérsia teológica emergiu dentro da própria Igreja Reformada, liderada pelo teólogo Jacó Armínio.

As ideias de Armínio, que questionavam a interpretação estrita da predestinação ensinada por João Calvino e seus seguidores, ganharam adeptos e geraram um debate com os calvinistas mais ortodoxos, liderados por Francisco Gomaro. A disputa teológica logo se entrelaçou com a política. Os seguidores de Armínio, conhecidos como Remonstrantes, encontraram apoio em figuras políticas como Johan van Oldenbarnevelt, que defendia uma maior autonomia provincial e uma postura mais tolerante. Em oposição, o stadtholder (chefe de estado) Príncipe Maurício de Nassau, alinhou-se com os calvinistas, ou Contra-Remonstrantes, vendo a controvérsia como uma ameaça à unidade e segurança do Estado.

Os Cinco Artigos da Remonstrância

Jacó Armínio

Em 1610, os seguidores de Armínio apresentaram ao governo holandês um documento conhecido como os Cinco Artigos da Remonstrância, que resumiam suas divergências com a doutrina calvinista. Estes artigos afirmavam:

  1. Eleição Condicional: A eleição de Deus para a salvação é baseada em Sua presciência da fé daqueles que creriam em Cristo.
  2. Expiação Ilimitada: Jesus Cristo morreu por todas as pessoas, embora somente os crentes desfrutem dos benefícios de Sua morte.
  3. Depravação Total e Graça Preveniente: O homem, em seu estado caído, não pode salvar a si mesmo, mas a graça de Deus (graça preveniente) capacita o homem a cooperar com o Espírito Santo na salvação.
  4. Graça Resistível: A graça de Deus pode ser resistida pela vontade humana.
  5. Possibilidade de Apostasia: Os crentes correm o risco de perder a salvação se não perseverarem na fé.

Os Cânones de Dort

Para resolver a crescente crise, o Príncipe Maurício convocou um sínodo nacional em Dort. Além dos delegados holandeses, foram convidados representantes de igrejas reformadas de vários outros países europeus, conferindo ao sínodo um caráter internacional.

O Sínodo de Dort rejeitou os Cinco Artigos da Remonstrância e formulou uma resposta detalhada, que ficou conhecida como os Cânones de Dort. Estes cânones são uma exposição da doutrina calvinista ortodoxa e são frequentemente resumidos pelos "Cinco Pontos do Calvinismo", popularizados pelo acróstico TULIP (em inglês):

Os Cânones de Dort são o principal resultado do Sínodo de Dort (1618-1619) e representam uma das mais detalhadas e influentes declarações da teologia Calvinista. Eles não foram criados para ser um compêndio completo da doutrina cristã, mas sim uma resposta específica e direcionada aos "Cinco Artigos da Remonstrância" (o Arminianismo), buscando defender a soberania de Deus na salvação.

Uma característica dos Cânones é a sua estrutura pastoral. Cada um dos cinco pontos, chamados de "Cabeças de Doutrina", é dividido em duas seções principais:

Consequências e Legado

Após o sínodo, os pastores e teólogos remonstrantes que se recusaram a subscrever os Cânones de Dort foram depostos de seus cargos e, em alguns casos, exilados. Johan van Oldenbarnevelt foi preso e executado por traição, consolidando o poder político de Maurício de Nassau.

Os Cânones de Dort, juntamente com a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg, tornaram-se um dos padrões confessionais fundamentais para as igrejas reformadas em todo o mundo. O sínodo teve um impacto duradouro na teologia protestante, solidificando a interpretação calvinista da soteriologia (doutrina da salvação) e definindo as fronteiras teológicas entre o Calvinismo e o Arminianismo.